"FRESCOBOL, UM ESPORTE COMO OUTRO QUALQUER".

 

Autor: Fernando Moura Peixoto

Este texto foi finalizado em 1987.

 

O AUTOR

Fernando (José de) Moura Peixoto nasceu em 1946 no Rio de Janeiro e começou a jogar frescobol aos 16 anos em Ipanema (1962). Divulgador, pesquisador e arquivista, tem alguns trabalhos (não publicados) de pesquisas, cinema, humorismo e poesias, além de colagem e coletâneas fotográficas. Vem colaborando em jornais da pequena imprensa desde 1983. Participou da exposi-ção "Será que vai dar Praia?" realizada em Janeiro e Fevereiro de 1986 no MIS, Museu da Imagem e do Som.
Com o intuito de transformar o frescobol em um esporte regulamentado e conseguir, nas praias, áreas especiais para a sua práti-ca, iniciou a pesquisa pioneira em janeiro de 1983, enviando-a depois às redações dos jornais cariocas e autoridades desportivas. Foram ouvidas mais de 500 pessoas, em sua maioria, frescobolistas, entre 1983 e 1987. Em 88, desdobrou-se o trabalho original em um segundo volume intitulado "FRESCOBOLANDO".

Fontes de Pesquisa:
- Milton Cavalcanti (Surgimento do Frescobol em Copacabana)
- Nei Ribeiro de Lemos (Surgimento do Frescobol em Copacabana)
- Zênio José Abdon (Surgimento do Frescobol em Copacabana)

- Otávio do Espirito Santo (Jogo similar no Leblon, Walther Hartning)
- João Correia Elias (Santa Catarina, frescobol nos estados)
- Gunther José Ammon Filho (Santa Catarina)
- Hélio Silva de Benedictis (Praia do Diabo)
- Eurípedes do Amaral Vargas Júnior (Lian Pontes de Carvalho, Frescobol e Jogos na Inglaterra, Itália e Grécia)
- Aiguacy Saldanha da Gama (Lian Pontes de Carvalho)
- Carlos Afonso Pimentel ("vôlei-tênis")
- Depoimentos de frescobolistas e turistas, nacionais e estrangeiros
- Cartas de leitores publicadas nos jornais

 

1) INTRODUÇÃO

Há grande preconceito por parte de certas pessoas, no Brasil, em relação ao Frescobol. Muitas outras, em virtude da ausência de competição e contagem de pontos, tendem a não considerá-lo um esporte, mas sim, uma recreação, um divertimento. Esquecem

-se no entanto, de que, ao jogarem frescobol, os seus praticantes realizam importante e salutar exercício físico. Para dirimir duvi-das a esse respeito recorremos aos léxicos, deles extraindo as definições de esporte e frescobol.

Esporte: "Do inglês sport, divertimento, de origem francesa. Exercício físico metodicamente praticado; entretenimento, distração (...). Dá-se o nome de esporte a toda e qualquer atividade física destinada ao aperfeiçoamento do homem, seja pela prática de exercícios, seja por meio de competições"
(Antenor Nascentes, Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras).

"Conjunto de exercícios físicos que se apresentam sob a forma de jogos individuais ou coletivos, cuja prática obedece a certas regras precisas e sem fim utilitário imediato"
(Antônio Houais, Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse).

"Na moderna conceituação, compreende-se por esporte toda a atividade destinada ao aperfeiçoamento físico e mental do homem, seja pela prática livre dos exercícios, seja através de competições. A importância do esporte na sociedade reflete-se na preocupação dos governos em torná-lo obrigatório onde quer que a sua ação se faça sentir(...). O conjunto das diferentes modalidades identificadas como esporte varia em função das regiões da terra, das condições climáticas, dos hábitos     e costume de cada povo"
(Achilles Chirol, Enciclopédia Barsa)

Frescobol:

"Modalidade esportiva praticada na praia: é uma adaptação do tênis, jogada com raquetes de madeira e bola de borracha; pode ser jogado por duas pessoas ou por equipes, em área demarcadas de acordo com entendimento prévio do jogadores"
(Achiles Chirol, Enciclopédia Barsa)

"Jogo para dois parceiros praticado ao ar livre, especialmente nas praias, no qual se utilizam raquetes e bolas de borracha"
(Aurélio Buarque de Holanda, Novo Dicionário da Língua Portuguesa).

"Jogo praticado especialmente na praia por dois parceiros e munidos de raquete e uma pequena bola de borracha. (Vocábulo surgido no século XX) de origem desconhecida, mas criado sem dúvida, pelo modelo de futebol, voleibol, etc..."
(Antônio Geraldo Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa).

2) ORIGEM DO FRESCOBOL NAS PRAIAS DO RIO DE JANEIRO

O frescobol surgiu em 1945, em Copacabana, praticamente ao acaso, quando o paraense Lian Pontes de Carvalho se distraía na beira da praia com um amigo, usando uma tabuinha para bater numa bola de tênis, algum tempo depois do término da Segunda Guerra. "Uma brincadeira de moleque de praia" no entender do próprio Lian, que morava no edifício de 1496, na Avenida Atlântica, esquina de Rua Duvivier, já demolido.

O novo esporte teve como berço o trecho da praia compreendido entre o Copacabana Palace Hotel e a Rua Duvivier (o chamado posto dois e meio). Juntamente com Lian, os primeiros jogadores foram: Milton Cavalcanti, Geraldo Éboli, Bertoldo, Virgílio Carneiro, Leopoldo, os campeões de tênis Armando Vieira e Júlio de Abreu, Jorge "Cavuca" Cavalcante    (campeão brasileiro e sul-americano de tiro), Maria Lafond, Nei Ribeiro Lemos, Zênio José Abdon, Jeremias de Souza, Carlos Magno,   Haroldo Hage Nicolau, Nilson, "Barão", Lauro Barbosa Ferreira, Américo Castro, Moacyr Moura Costa, os guarda vidas locais "Jonga", Sebas-tião e Emílson, e muitos outros. O frescobol nasceu ao lado do famoso Clube dos Cafajestes e alguns dos seus integrantes eram também pioneiros nesse esporte: Carlos Peixoto, Newton Barbosa e Jorge "Maresia" Macedo.   Outros, como Eduardo Henrique de Oliveira (o saudoso Edu), Carlinhos Niemeyer, Mariozinho de Oliveira e os irmãos Oldar e Darcy Fróes da Cruz, embora não sendo grandes aficionados, eventualmente o praticavam.

Lian Pontes de Carvalho, dono de uma fábrica de móveis de piscina, pranchas e esquadrias de madeira, na Rodovia Presidente Dutra, confeccionou as primeiras raquetes vendidas na praia com o auxilio dos guarda-vidas (sem o intuito de patenteá-las, ele chegou a comercializar boa quantidade delas para uma loja do centro da cidade).  Os que não podiam comprar ou mandar fazer suas raquetes em serrarias cortavam pedaços de madeiras nas obras dos prédios em construção na Av. Atlântica e lhes davam forma e acabamento aparando-as árdua e pacientemente com cacos de vidro, serra tico-tico e lixa. As raquete eram rústicas e pesadas. Utilizava-se o pinho, e depois o cedro nas sua feitura.     Com o tempo, os cabos foram encurtados e passou-se a pintar ou enverni-zar as raquetes para melhor protege-las da água. Jogava-se com bolas de tênis descascadas, hábito que perdurou até 1976, quando começaram a ser adotadas as bolas americanas (rackquetball).

O esporte estendeu-se ao Leme e ao Posto 06, sempre com o nome de "jogo de raquetes" ou "tênis de praia". Em 1950, proibido pela polícia de Copacabana transferiu-se para o Arpoador e logo para a Praia do Diabo, que se tornaria a grande "academia de frescobol" durante mais de 30 anos (lá sua prática sempre foi tolerada e liberada). Ainda na década de 50, propagou-se pelo Castelinho, Ipanema e Leblon, atingindo também a Ilha do governador, Paquetá e Niterói. Sofreu então campanha contrária por parte da imprensa e pelos incomodados com o novo esporte, que o apelidaram pejorativamente, de "coisa de frescos" e "jogo de frescos" e logo, "frescobol". No entanto os frescobolistas não se importaram e adotaram o nome hoje reconhecido e até dicionarizado por Mestre Aurélio: "Frescobol, s.m. (Bras.), jogo para dois parceiros, praticado ao ar livre, especialmente nas praias no qual se utilizam raquetes e bola de borracha: "caiu na água, escalou rochedos, participou de partidas de frescobol" (Malu de Ouro Preto, in Vozes da Cidade, p.79). Pl.: frescobóis). Há entretanto, uma outra versão para o nome do esporte: seria frescobol porque é jogado na beira d'água, ou seja, no fresco. A Enciclopédia BARSA, na sua primeira edição, em 1964, já registrava o frescobol na parte relativa aos jogos de praia: "O tênis é outro esporte que se transferiu para a praia. Na indispensável adaptação, as raquetes são de madeira e a bola de borracha (...). A designação do jogo recebeu também uma adaptação regional: frescobol."

Atualmente o frescobol é um dos esportes mais difundidos nas praias brasileiras. Joga-se praticamente em todas os Estados.  E no exterior há jogos similares. No frescobol não existem adversários, e sim, parceiros,    que preparam as jogadas, alternando-se no ataque e na defesa. Além da dupla, a longa, média e curta distância, joga-se o "dois-um" (trinca) o "três-um (três batendo e um defendendo) e o "dois-dois" (duas duplas). É um esporte solidário, sem a preocupação de marcar pontos ou vencer. Fácil de ser praticado e barato, dispensa campos delimitados e roupas especiais. Excelente exercício físico e ótimo entretenimento, quem joga frescobol com freqüência e intensidade apura os reflexos e mantém-se em forma. Nos meios frescobolísticos confraternizam-se todos, não havendo diferenças sociais, econômicas, políticas, raciais ou regionais, nem discriminação de sexo. E muito menos, abismo de gerações. Entre os adeptos do frescobol estão, desde crianças e adolescentes, até pessoas de mais de 50 anos, misturando-se estudantes, artistas, desportistas, militares, jornalistas e profissionais liberais.

3)UM ESPORTE PRECURSOR NA PRAIA DO LEBLON

No verão de 1943, na Praia do Leblon, em frente à Rua Dom Pedrito, atual Almte. Guilhen, um judeu alemão de nome Walter Haarting, professor de inglês e ginástica, iniciou a prática de um esperte predecessor do frescobol. Morador do antigo Edifício Novaes, na Av. Afrânio de Mello Franco, ele recebeu a alcunha de "Mão de Sebo" por não jogar bem vôlei, pois a bola quase sempre lhe escapava ao controle, o que acontecia também com a peteca.

Aproveitando o intervalo da turma da peteca, que armava uma rede na areia fofa, em cima, Walther usava a mão para impelir uma bola de tênis a um ou dois parceiros . A bolinha continuava a escorregar na sua mão e ele,    fora do campo da peteca, fez tentati-vas com raquetes de tênis na praia. Não satisfeito, manufaturou raquetes menores em madeira tosca, semelhantes as atuais do frescobol, e demarcou na areia uma quadra maior para o novo jogo, adaptada do tênis. Disputavam-se então "melhor de três" partidas, com placar de 10 pontos, participando uma ou duas pessoas de cada lado. Nomes conhecidos acompanharam "Mão de Sebo" neste jogo, tais como: Urbano Magalhães de Almeida, Antônio Novaes, a professora de educação física Yara Jardim Vaz e sua marido Franklin (Tarzan), Celeste Silva Jardim (irmã de Yara), Jorge Nagib, o então Capitão César Montanha de Souza,   o ca-sal Yolanda Nascimento e Dario Sarmento, Arlete, Ney Cardoso e o Prof. Walter Nascimento.

Jogado sempre em área delimitada na areia quente, com rede e marcando-se pontos, o esporte criado por Walter Hartning não recebeu nenhum nome em especial e perdurou de 1943 a 1949, somente no Leblon. Muitos de seus adeptos vinham de outros lugares e tinham que aguardar a vez em torno da única quadra existente para jogar.  Ao final da década de 40, o crescimento natu-ral da freqüência praiana e a proliferação das redes de vôlei fizeram o jogo desaparecer gradativamente. Alguns entusiastas passaram a praticá-lo na beira d'água, sem rede, campo e contagem de pontos: uma parceria, como no frescobol.

4) JOGOS APARENTADOS NA PRAIA

Antes do advento do frescobol, havia em nossas praias alguma recreações congêneres. Impulsionava-se para o alto, sem muita técnica, uma bolinha, que podia ser ornada com penas (uma petequinha), utilizando-se tamborins de pergaminho esticado ou pequenas raquetes encordoadas, de cabo leve e comprido, como no jogo da volante. Batia-se em uma bola presa por um fio a um peso depositado no chão, que ia de um lado para o outro sem se perder. Ou tentava-se mesmo praticar o tênis na areia.

Nos anos 70, em Copacabana, próximo a Rua Xavier da Silveiras, veteranos tenistas jogavam o "volêi-tênis" em uma quadra comprida, demarcada por fitas e bandeirolas na areia fofa, sendo a rede fixada um pouco mais alta que no tênis. As raquetes possuíam o cabo longo, tendo a cabeça constituída de espuma de borracha prensada por duas madeiras compensadas,   ovaladas e grossas. As bolas, regras e marcação de pontos eram as mesmas do tênis, mas jogava-se de voleio,    como no frescobol, já que a bola de tênis não quica na areia. As duplas posicionava-se no campo da seguinte maneira: um jogador ficava mais à frente, perto da rede, e o outro guarnecia a retaguarda. O "volêi-tênis" surgiu na década de 50 no Leme, introduzido por "seu Mário", um italiano (ex-goleiro reserva da seleção de seu país) que se radicou no Rio.

Em meados da década de 60, em Ipanema, à direita da Rua Joana Angélica, acontecia um jogo muito semelhante ao volêi-tênis, mas com a rede alta, de peteca. As raquetes eram de madeira escura, pequenas, redondas e grossas, e as bolas felpudas.   Jogavam três de cada lado (geralmente senhores): dois próximos da rede e o terceiro cobrindo a parte traseira da quadra, armada em cima, logo depois da calçada e nas antigas dunas. Contava-se pontos iguais ao do vôlei.

Em 1980, o professor de Educação Física Sérgio Zaccaro, frescobolista e adepto do "squash", patenteou dois interessantes jogos baseados no frescobol: o "zaccaro-game" e o "zaccaro-ball", que podem se realizar na praia ou fora dela. O "zaccaro-game" é praticado por duas ou mais pessoas quem empunham um pequeno cabo com um copo de plástico acoplado na ponta. A bola deve ser lançada por uma e recebida no copo pela outra, que a devolve em seguida, e assim sucessivamente. No "zaccaro-ball" os participantes encaixam pás de madeira, em forma oval, na palma das mãos. A partida transcorre como no frescobol, mas se impulsiona a bolinha com as duas mãos.

Em São Paulo, nas praias de Santos, joga-se muito o tamboréu. As raquetes são grandes tamborins, todos em madeira e sem cabo. Dado a ausência, passa-se o tamboréu de uma mão para a outra quando a bola vem inversa. Usam-se bolas felpudas de tênis. Semelhante a um frescobol com marcação de pontos, quadra e rede, o tamboréu é bastante popular e existe desde os anos 30 em Santos, onde se fazem campeonatos.

Nas praias de Guarujá, de areia dura e bem batida, os paulistas praticam o frescobol em campo demarcado por fitas, reduzido e adaptado do tênis, com rede baixa (alguns jogadores dão-se ao luxo de contratar garotos do local só para apanhar as bolas). Na praia da Enseada, na Av. Santa Maria, defronte ao Hotel Casagrande, acontecem até competições de frescobol (lá chamado de "raquetinha") que precedem os famosos torneios de tênis ali efetuados em piso sintético no início de cada ano.

5) FRESCOBOL: HISTÓRIA E ARTE

É interessante assinalar a existência de divertimentos e jogos de raquete muito anteriormente na França: o "jeu de paume", desde o século XIII, a "court paume" e a "longue paume", nos séculos XIV, XV e XVI,  que consistiam em se impelir uma pequena bola feita de material leve contra uma parede, ou passá-la sobre uma rede em um campo, de um lado para o outro, com as mãos revestidas por uma luva ou correia de couro, utilizando-se mais tarde uma pá e madeira, o "battoir".     Em fins do século XVI adotou-se a raquete acordoada. A palavra "raquete" vem do árabe vulgar "rahat", que quer dizer "palma da mão".

Em 1873, na Índia, o major inglês Walter Clopton Wingfiel desenvolveu um jogo baseado e adaptado da "longue paume" com o nome grego de "sphairistike" (esferística, "arte de jogar a péla, pequena bola de borracha). Patenteado em 1874 e levado para a Inglaterra, o "sphairistike" sofreria modificações em 1875, à revelia do seu criador, transformando-se no "lawn tennis" (tênis de grama) e originando o tênis moderno. O termo "tênis" deriva do francês "tenir" (pegar, segurar): no século XIV, na França, ao lançarem a bola, os praticantes da "paume" (péla) gritavam "tenez" (segura). Contudo há registros indicando que jogos semelhantes já eram conhecidos no Egito, Pérsia, Grécia e Roma, séculos antes da era cristã.

Conta-se que o Rei Henry VIII da Inglaterrra, em 1534, quando rompeu com a Igreja de Roma (que não lhe permitiu o matrimônio religioso com Ann Boleyn), teria mandado converter várias catedrais locais para jogos de péla,  disputados com as mãos ou raquete e pequenas bolas, em quadras fechadas ("courte paume"). Recentemente, ao se restaurar uma dessas catedrais, encontrou-se, escondida no teto uma péla perdida.

No Museu do Prado, em Madri, na Espanha, existe um famoso quadro de Goya, datado de 1776 e intitulado "El Juego de Pelota", que mostra dois trios de jogadores, em postura similar à do frescobol, defrontando-se em um terreno baldio, sem rede ou campo delimitado, portando longas e estreitas raquetes de madeira com pequenas cestas nas pontas.    Parece tratar-se de uma variante da "pelota basca", em que uma cesta comprida e côncava de vime trançado, introduzida no braço, acolhe a bola, que deve ser atirada com violência a uma parede e, na volta, recebida pelo adversário, e assim por diante.

Em, diversos filmes estrangeiros, passados em épocas diferentes, podem ver-se jogos muito assemelhados ao frescobol. Em "Robin e Marian", com Sean Connery e Audrey Hepburn, cuja ação transcorre no final do século XII, na Inglaterra, duas moças empunham rústicas raquetes triangulares, divertindo-se num autêntico frescobol numa sala de um castelo, enquanto dialogam o heroí e o Rei Ricardo "Coração de Leão". Em "Gavião no Mar", com Errol Flynn e Brenda Marshall, ambientado em 1585, uma nobre jovem espanhola e sua dama de companhia dão raquetadas em uma bola, no convés do galeão espanhol, que as está conduzindo da Espanha para a Inglaterra. Já em "A fúria", com Kirk Douglas e Amy Irving, onde a trama se desenrola em 1977, é frescobol mesmo que as duas duplas jogam em uma praia do Oriente Médio, ao fundo, enquanto Douglas e o filho paranormal conversam em primeiro plano, antes de um ataque terrorista local, logo no início do filme. Em "A Mulher do Tenente Francês", "Visões de Sherlock Holmes" e "Os Três Mosqueteiros" (versão de Richard Lester) há o "real tennis", um esporte de raquetes antecessor do tênis, praticado em quadras fechadas ou abertas, e até hoje é apreciado na Inglaterra e França.

Nos Estados Unidos, na década de 20, James Cogswell e  Fessenden Blanchar criaram o "platform tennis" como uma alternativa ao tênis, reduzindo o tamanho da quadra (um estrado de madeira ripada) 13,40 metros por 6,00 e cercando-a com uma tela de arame, o que permite o rebote e o retorno da bola ao jogo, fazendo-o mais emocionante. Originariamente designado "paddle tennis", é disputado por duas (individualmente) ou quatro pessoas (duas duplas) com raquetes de madeira, metal ou plástico  (muito parecidas com as do frescobol) medindo 43 cm de comprimento e 20 cm de largura. O centro da pá das raquetes possuem orifícios que diminuem a resistência do ar. As bolas são de espuma de borracha compacta. Um dos esportes de mais rápido crescimento no EUA, o "platform tennis" apresenta um índice anual de expansão de 25%.

Também nos Estado Unidos, durante os anos 30, Earl Riskey, na Universidade de Michigan, estabeleceu os princípios do "paddleball", que mescla elementos do frontão manual (hardball), tênis e squash,   sendo praticado numa quadra retangular inter-na com uma, três ou quatro paredes, na metragem 12,10(comp.) x 6,00 (larg.) x 6,00 (alt.). Participam dois (individuais), três (trinca, onde um servidor atua contra dois rebatedores) ou quatro(duplas) jogadores. Inicialmente utilizavam-se bolas de tênis e raquetes de cabo curto ("paddles" ou pás), em madeira, nas dimensões 43 cm x 20 cm.   Em 1949, Joe Sobek, na Associação Cristã de Moços de Greenwich, em Cannecticut, adotou uma raquete de aro, encordoada por uma rede de tripa (ou fios de nylon), que dá maior controle e maior velocidade à bola. Os adeptos deste tipo de raquete chamam então o esporte de "racquetball" e os que continuam empregando as raquetes de madeira, "paddleball". Atualmente só se jogam com bolas de borracha pressurizada.

6) RAQUETES E BOLAS DE FRESCOBOL

As raquetes de frescobol medem aproximadamente 45 cm de comprimento (incluindo o cabo) por 21 cm de largura na pá, e, em diversas marcas, são vendidas habitualmente nas lojas de artigos esportivos. O bom jogador de frescobol, entretanto, gosta de mandar fazer raquetes segundo suas características de jogo: leves para "atacantes", "batedores" ou "cortadores", e pesadas para "defensores", "aparadores" ou "seguradores". O peso ideal de uma raquete gira em torno de 400 a 450 gramas. Contudo, alguns defensores preferem raquetes de peso mais elevado.  Usa-se geralmente o pinho e o cedro nas sua confecção, embora outros tipos de madeira sejam utilizados também: canela, vinático, cerejeira, mogno, etc.... Existem raquetes de fibra de vidro, muito bonitas, coloridas, vistosas, porém pouco eficientes.  As raquetes de madeira podem ser pintadas, envernizadas, impermeabilizadas com araldite, ou sem qualquer acabamento especial. É costume colocar-se uma proteção de borracha, fita adesiva plástica, tira de pano, barbante enrolado ou serragem colada no cabo das raquetes a fim de dar maior firmeza na empunhadura e evitar a formação de bolhas e calos nas mãos.

Joga-se com bolas de "racquetball", americanas e importadas, trazidas inicialmente em 1976,  na cor preta, pelo piloto de helicóptero Sebastião Sarago. Essas bolas, em borracha pressurizada, revolucionaram o frescobol, tornando-o mais ágil e dinâmico. A preferência recai nas marcas: Penn, AMF-voit e Wilson. Usam-se várias outras marcas estrangeiras (Ram, Nassau, Canon, Pinch-Shot, Nice, Vittert, Seamco, Tenex, Boomerang, Ektelon e Spalding) cujo preço varia de acordo com a cotação do dólar. As similares nacionais, embora muito baratas, são duras e pesadas, não tem elasticidade e somente principiantes as utilizam. Entre alguns jogadores do Norte-Nordeste a predileção ainda é pelas bolas de tênis descascadas.

7) MODALIDADES E ESTILOS DIFERENTES

A modalidade de frescobol mais comum são os jogos entre dois parceiros, aqui denominados "duplas",  mas que correspondem, na realidade, às partidas "simples" ou "individuais" ("singles") do tênis. Existem uma grande diferença de estilos e padrão de jogo, que variam de jogador para jogador e de um local para outro. Assim, por exemplo, na Praia do Diabo, pratica-se um frescobol a longa distância, cadenciado, com muita força, bolas pelo alto e a meia altura. Joga-se bastante o "dois-um" (trinca), o "três-um" (três cortando e um devolvendo) e o "dois-dois" (duas duplas, os "doubles" no tênis). Em Ipanema, o frescobol é jogado de perto, curto e rápido, com menos força e bolas mais baixas. Pouco se joga a "trinca" e raramente o "dois-dois" e o "três-um". Pode-se tentar definir melhor dizendo que o frescobol da Praia do Diabo seria "pauleira" ("heavy" ou "hard") e o de Ipanema, "ligeiro" ou "leve" ("light"). As duas tendências coexistem e se misturam na Barra da Tijuca, Praia do Pepino e Posto Seis.   No resto da Praia de Copacabana predomina o jogo longo e forte.  Há certas divergências entre os adeptos das várias escolas, cada um considerando o seu estilo o mais correto

8) JOGA-SE EM QUASE TODO O BRASIL

Praticado na totalidade das praias do Rio de Janeiro, encontra-se frescobol pelo Brasil afora. Eis alguns desses lugares, entre praias (marítimas, lacustres ou fluviais) e clubes: No Rio Grande do Sul, Em Torres e Tramandaí; em Santa Catarina, em Laguna, Imbituba, Florianópolis (nas praias da Joaquina, dos Ingleses, das Canavieiras, de Jurerê, de Sambaqui e Ponta das Canas), em Camboriú e Itajaí; no Paraná, em Guaratuba e Caiobá. Em São Paulo, em Santos, no Guarujá (nas praias das Astúrias, de Pernambuco, das Pitangueiras, do Perequê e da Enseada), em IlhaBela, Caraguatatuba, Bertioga e Ubatuba. No Espírito Santo,    em Marataízes, Píuma, Guarapari (na praia dos Namorados), em Vila Velha, Vitória e Conceição da Barra. Na Bahia, em Porto Seguro, Ilhéus, Salvador (nas praias do Farol, de Itapoã e do Forte) e na Ilha de Itaparica (no Clube Mediterranée). Em Sergipe, em Aracaju, na praia de Atalaia. Nas Alagoas, em Marechal Deodoro, na praia do Francês; em Maceió, nas praias de Jatiúca, Pajuçara, Ponta Verde, Sobral e Cruz das Almas e em Barra de Santo Antonio, na praia de Paripueira. Em Pernambuco, em Recife, na Praia de Boa Viagem; na Paraíba, em João Pessoa, na Praia de Tambaú; no Rio Grande do Norte, em Natal, na Praia do Artistas, e em Ponta Negra. No Ceará, em Fortaleza, nas praias de Iracema e do Futuro, e em Aracati, na Praia de Canoa Quebrada.  No Maranhão, em São Luís, nas praias de Olho Dagua e Araçagi, no Pará, em Belém, nas praias de Salinas e Mosqueiro, e em Santarém, na Praia de Vera Paz, no rio Tapajós; no Amapá, em Macapá, nas margens do Rio Amazonas. Em Brasília, no Parque Rogério Pithon Farias, nos clubes do Exército, Cota Mil, Press Club e Iate Clube. Em Minas Gerais, em Juiz de Fora,  no Cascatinha Country Club, em São João Del Rey, no Athletic Club e no Minas Futebol Clube, em Belo Horizonte, na Universidade Católica de Minas Gerais (UCMG).

9) JOGOS SIMILARES NO EXTERIOR

Em outros países existem jogos de praia bastante semelhantes ao frescobol, praticados com raquetes, bolas, nomes e técnicas diferentes, e menor freqüência, dentre eles: Uruguai (em Punta del Leste), Argentina ("juego de paletas"; jogado em Mar Del Plata, Pina Mar, Santa Teresita; San Bernardo e Villa Gessel); Chile, Peru (em Lima, na Praia de Herradura, depois de Miraflores); Colômbia ("juego de raquetas", em Cartagena, defronte ao Hotel Caribe e em Santa Marta, na Praia de El Rodadero); Venezuela e Panamá. Nos Estados Unidos ("smash ball" e "beach tennis"), no Hawaí, em Honolulu, nas praias de Waikiki, Alamoa e Diamond Head; na Flórida, em Daytona Beach, e na Califórnia, em Los Angeles e em São Francisco, na Muir Beach, em Marin County. Na Europa, na Espanha ("palas", em San Sebastian, Barcelona, Palma de Mallorca e Ibiza); França ("raquette de plage"), Itália ("rachettone", nas praias do Mar Adriático), Inglaterra, Alemanha ("strand tennis") e Grécia (nas ilhas de Ios,  Mykonos e Corfu e em Atenas, em Glifada). No Oriente Médio, no Líbano, Israel ("matkot" e "raketot", em Tel Aviv, na Hilton Beach,    Serathon Beach e Gordon Beach; em Herzelia, na Sidney-Aly Beach; em Bat Yam, em Hachof-Hashaket; em Haifa, nas Dado Beach, e em Eilat no Golfo da Aqab, no Mar Vermelho) e no Egityo, nas praias de Alexandria.

10) REPRESSÃO POLICIAL NAS PRAIAS DO RIO DE JANEIRO

A intensa repressão policial e as campanhas negativas de parte da imprensa só fizeram contribuir para a propagação cada vez maior do frescobol. Todos sabemos que a melhor forma de se incentivar um hábito e transforma-lo em paixão ou vício, é   proibindo . O que não é considerado lícito sempre despertou a paixão humana.

No inicio da década de 60, no Castelinho, então o lugar da moda, solicitados pelos guarda-vidas a coibirem o frescobol, policiais uniformizados, usando pesadas botas, adentraram a praia e foram recepcionados pelos banhistas com estrepitosas vaias e copinhos de refresco recheados de areia. Ante a inesperada oposição, os guardas tiveram que se retirar. Mas o tumulto gerado deixou ferida uma moça filha de militar, e o caso rendeu ainda por algum tempo.

Comumente, pressentindo a aproximação da polícia, os frescobolistas corriam a enterrar suas raquetes na areia ou escondê-las sob as toalhas das garotas. Muitos mergulhavam no mar, prendendo a raquete entre as pernas ou enfiando-a no calção, nadando para bem longe. E, invariavelmente, lá encontravam seus colegas surfistas (reprimidos também na época) com grandes e pesadas pranchas de madeira, que lhes faziam companhia, esperando a desistência e a saída dos guardas.

Nos anos 70 o combate ao frescobol prosseguia duro. Em meados da década em Ipanema, um dupla de jovens frescobolistas  fugiu para a calçada ao perceber a chegada de dois policiais (já em trajes praianos: bermuda, camiseta, boné, revólver e um longo bastão) que os perseguiram como a bandidos comuns pela Av. Viera Souto. Finalmente, os rapazes refugiaram-se em um edifício onde morava um amigo, na Rua Joana Angélica, e escaparam ilesos. Ao final da década só se conseguia jogar depois das cinco horas da tarde, quando os guardas iam embora. Mas, ás vezes, eles retornavam de surpresa, efetuando "blitzen"    pela beira d'agua.

Através dos tempos os frescobolistas aprenderam a conviver com o policiamento nas praias, montando um verdadeiro esquema de segurança que envolvem avisos, mensagens e até alarme. Colaboram desportistas, vendedores ambulantes e os próprios banhistas, que anunciam a presença dos "homens". Na rua Vinícius de Moraes chegou-se a plantar uma sentinela avançada que trilava um apito toda vez que a situação ameaçava complicar-se. Mas o melhor mesmo sempre foi tentar o diálogo com o policial, argumentado que se está praticando um esporte e não uma contravenção. Se a conversa não der resultado, perde-se a raquete (que jeito) e logo se compra outra. Ou pega-se a de reserva, que fica no carro ou em casa. Afinal de contas, a praia continua.

No verão de 81 a repressão ao frescobol atingiu níveis nunca vistos. Arbitrariamente, aprendiam-se raquetes e bolas até de quem estivesse sentado na areia sem jogar. Aquele que ousasse passear no calçadão portando raquetes, tinha que entrega-las às autoridades. Encaminhadas aos quartéis de polícia, furavam-se as bolas e se destruíam as raquetes, passando-as na serra.   Depois de algum tempo do sucesso inicial da operação, o frescobol ressurgiu com força total.

Os policiais perceberam então ser impossível acabar com o frescobol, um esporte como outro qualquer, e começaram a orientar seus adeptos a só joga-lo em cima na areia fofa, ao lado das redes de vôlei. Em 16 de dezembro entrava em vigor a Resolução da Secretaria de Segurança Publica de 0451 (que prevalece até hoje), regulamentando todas as atividades desportivas (além de outras) nas praias do Rio e delimitando áreas para o frescobol, liberado agora em qualquer horário, mas somente em  determinados módulos, sempre entre as redes de vôlei ou campos de futebol existentes e o calçadão, na areia quente,   o que muito dificulta a sua prática com o sol abrasador e o intenso calor do verão.

11) CAMPANHAS NEGATIVAS E CENSURA DA IMPRENSA

Em certos jornais valem-se de tudo para denegrir o frescobol, até mesmo inventar histórias. Em 21/10/80, publicou-se no    "Informe JB", sob o título "Violência", que o ex-jogador de futebol Dida teve que ser socorrido as pressas em um hospital,  vítima de uma bolada de frescobol na cabeça.   Na verdade, o ex-craque do Flamengo e da Seleção caíra e batera a cabeça no chão quando jogava futevôlei na praia. Em 5/2/81, numa reportagem contra o frescobol no "Caderno B" do Jornal do Brasil, Susana Schild criou uma "tradição frescobolística responsável por cegar menino ou acertar barriga de grávida". Em dezembro de 1983, na sua coluna de O Globo, Ibrahim Sued afirmou que "o frescobol já havia feito, nos últimos seis meses, mas de cem vítimas infantis aqui no Rio". Em janeiro de 1984, o Globo-Ipanema descreveu o "golpe do desportista", que estaria sendo aplicado nas praias: " O ladrão chega com duas raquetes de frescobol e convida algum adepto do esporte para jogar.  Quando este se aproxima para pegar a raquete, o assaltante mostra o revólver e exige todos os pertences da vítima". Ao final do verão de 1985, lia-se em O Dia que o carioca já estava se acostumando com a presença de animais nas praias: cachorros, frescobolistas e ratos de praia".   E no início do verão seguinte, no jornal universitário Tribuna da Cidade, Ana Cecília Burle Marx chamou o frescobol de "esporte de sádicos apreciado por masoquistas". Tais notícias, falsas e ofensivas aos praticantes de frescobol, nunca são desmentidas.

Tudo faz crer na existência de ordens internas em muitos jornais do Rio proibindo reportagens e notícias favoráveis ao frescobol, assim como divulgação de cartas de leitores defendendo este esporte. Quando publicadas, elas perdem sempre o sentido original, pois saem resumidas, truncadas ou com erros de impressão.   Em julho de 84, o encarregado da seção de cartas do Jornal do Brasil, Carlos Alberto Teixeira, respondendo pelo telefone a um frescobolista que reclamava de cortes efetuados em sua missiva, disse ironicamente: "O frescobol é um assunto que não resisti a mais de dez linhas".

Mas como faturar é preciso, os mesmos jornais que criticam o frescobol cedem espaço aos patrocinadores esportivos e publicam freqüentemente anúncios de raquetes e bolas de frescobol. E estampa ainda na primeira página, geralmente aos Domingos ou Segundas-feiras, fotos de apetitosas "gatinhas" em diminutos biquínis, jogando frescobol, para atrair a atenção de mais leitores nas bancas e aumentar a vendagem.

12) FRESCOBOLISTAS BRASILEIROS NO EXTERIOR

Inúmeros brasileiros jogaram frescobol em viagens ao exterior e despertaram a curiosidade das pessoas, que ficaram impressionadas com a velocidade do jogo, a destreza dos praticantes e por ser um esporte de parceria, não competitivo.

Em 1952, Newton Barbosa, do Club do Cafajestes e ex-goleiro do Bangu, jogava em Cannes com a sua namorada francesa.

Em 1976, o arquiteto Antonino Cuis Winter e o empresário Chico Mascarenhas   "bateram frescobol" durante três meses nas praias de Lagoa,        capital da Nigéria, quando da montagem do Pavilhão Brasileiro do Festival de Arte e Cultura Negra, ali realizado no início de 1977. Mandaram um carpinteiro nigeriano fazer as raquetes e utilizaram bolas de tênis descascadas.

Em 1977, o gaúcho Luiz Homero Pereira, desenhista, e o brasileiro-americano Bob Sushereba, surfista, radicaram-se na   Califórnia, em Marin County, subúrbio de São Francisco, divulgando o frescobol na Muir Beach, onde se joga até hoje. As primeiras raquetes eram brasileiras, da marca Sulina, quer foram logo copiadas pelos americanos e sempre requisitadas a Luiz Homero e Bob nas suas visitas ao Brasil. As bolas são as de "racquetball", facilmente adquiridas e muito baratas por lá. Eis algumas "feras" do frescobol californiano: Dennis Brewer, o inglês Bill Dodd, o israelense Udi e o brasileiro Silvio Araújo.

De 1977 a 1982, o paulista Euripedes do Amaral Vargas Jr., PhD em Engenharia Geotécnica, o paraibano Valter, estudante, e o carioca Leandro Moura Costa, PhD em engenharia, "frescobolaram no Hyde Park e em Hampstead Heath, em Londres. Excursionando pela Europa na mesma época, Vargas e o carioca Lain Pontes de Carvalho, PhD em Imunologia e sobrinho do idealizador do frescobol, se encontraram e praticaram o esporte também na Itália e na Grécia.

Em 1979, o cinegrafista Flávio Alexim jogou frescobol em Fire Island, Nova Yorque, em Kismet Beach e Ocean Beach. Em 1980, Flávio "deu sua batida" no Regent Park, Londres, em pleno inverno. Em 1982, "frescobolou" em Ibiza, na Espanha,    durante a copa do mundo.

Em 1981, o matemático Roberto Labarthe, o analista de sistema sistemas Paulinho Gomes e o baterista Eduardo "Duduca" jogaram frescobol na Washington Square, em Greenwich Village e no Central Park, em Nova Yorque.

Em 1982, o catarinense João Correia Elias, mestre da Petrobrás "bateu frescobol" na Praia de Tamano, ao sul do Japão. Embarcadiço, Elias viaja muito e carrega sempre raquetes. Já jogou na Argentina, Uruguai e noutros países e em quase todos os estados praianos do Brasil.

Em 1982, o ritmista e percurssionista Alfredo Bessa "frescobolou" defronte ao Hotel Varadero, na Praias de Varadero, em Cuba, por ocasião de um grande festival de música que contou com a presença de renomados artistas brasileiros.   Varadero, considerada "a Guarujá cubana", dista 130 kms de Havana.

Em 1983, o músico Eduardo Jones jogou frescobol em Ibiza, na Espanha. Em 1984, Edu retornou a Ibiza e durante quatro meses obteve muito sucesso tocando em um conjunto e "batendo frescobol" com sua mulher Joana, nas Praia de Las Salinas. O jogo rápido e curto do casal contrastou com o lá existente, lento e a longa distância (praticado com grandes raquetes de madeira compensada, redondas e grossas, e chamado "palas" (raquetes) ou mesmo "frescoball", pois Ibiza, uma atração internacional, já importou o nome). Joga-se bastante em frente ao Bar Waikiki: nativos e turistas.

Em 1984, Luís Antonio Pinto, funcionário público, "frescobolou" em Portugal, na Costa de Caparica, em Lisboa, ensinado o esporte a moças portuguesas que, entusiasmadas, chegaram a lhe pedir o envio de raquetes do Brasil

Em 1985, Guilherme Bungner, estudante de Engenharia, jogou frescobol na Grécia, em Atenas, numa praia a caminho de Cape Sunion, onde se localiza o Templo de Poseidon.

Em meados de 1985, Alcindo Pereira Silva Filho, o "Cidinho", dono da butique Bum-Bum, e o brasileiro suíço Eugen Bachmann, "bateram frescobol" em Ibiza, Espanha. Torneios de "Frescoball" estavam acontecendo por lá, sendo a escolha dos integrantes das duplas feita na hora, através de sorteio. Mas, pelo fato de nossas raquetes, menores e compactas,     oferecerem um rendimento superior ao das espanholas, em decorrência da fama de peritos neste esporte, dificultavam-se a entrada de participantes brasileiros.

Em 1986, Eugen Bachmann, bancário, e o peruano Miguel Steinmann, economista, residindo então na Suíça, começaram a "frescobolar" nas margens do Lago Zurique (Zurichsea). Usaram raquetes brasileiras, da marca Sulina, que serviram de modelo para alguns iniciantes suíços confeccionarem as deles. O duo "deu batidas" ainda na Cote D'Azul, em Ibiza e no Hyde Park.

13) REINVIDICAÇÕES DOS ADEPTOS DO ESPORTE

O maior anseio dos frescobolistas é o reconhecimento do frescobol como um esporte e a demarcação de áreas especificas e compatíveis para a sua prática, diferentes das atuais, situadas    próximas aos calçadões, na areia quente, o que inviabiliza o jogo no calor forte de verão.

Muitos acham que se poderia liberar o frescobol na beira d'água, a partir de um determinado horário, em dias de semana e quanto houvesse menor afluxo de banhistas, ficando tal medida a critério dos policiais ou responsáveis pela fiscalização das praias. Não se justifica o rigor da proibição ao jogo estando a praia vazia ou com pouco movimento. A criação de "quarteirões de esportes", alternando-se com "quarteirões de lazer", solucionaria de vez o problema.

Outras importantes aspirações frescobolísticas são conseguir o apoio das autoridades para a realização de torneios, o patrocínio de empresas e a formação de entidades (legitimadas) e uma federação congregando os frescobolistas,  a exemplo do que já ocorreu com os praticantes de esportes praianos mais recentes.

Quantos aos campeonatos, a opinião dos frescobolistas se divide. Uns pensam que o esporte vai perder a graça e o caráter amador, não competitivo e de parceria, se tiverem que ser contados pontos em uma disputa. Tarefa difícil resolver como se marcarão esses pontos. Várias sugestões, algumas até mirabolantes, já foram registradas.    A mais viável, no entender da mai-oria, é a avaliação do desempenho dos jogadores em duplas, masculinas, femininas ou mistas, sem limite de idade, que não concorreriam entre si, mas inter-si.     Cada dupla atuaria um tempo determinado em uma quadra com 12 metros de comprimento por 4 de largura, delimitada na areia com fitas ou cordões. E seria julgada por uma comissão especializada que atribuiria notas em quesitos como ataque, defesa, força, precisão, estilo, constância de jogo, habilidade, entrosamento e beleza visual do esporte.

Torna-se essencial aqui ouvir o parecer de veteranos e profissionais do frescobol. Carlinhos Magno,   agrônomo e administrador de empresas, sugere a instalação de um pequeno gol, com uma rede filó, por trás de cada jogador. A dupla jogaria normalmente, vencendo aquele que, ao final da partida, tivesse permitido por menos vezes a passagem e a penetração da bola em sua meta. Zênio José Abdon, engenheiro, imaginou a colocação de um arco de porte médio, a meia altura, entre os participantes, que teriam que efetuar as jogadas com a bola atravessando-o . Nei Ribeiro de Lemos, oficial de Marinha, acha que o frescobol deve ser vigorosamente disputado, com ambos os contendores atacando e defendendo, assinalando-se pontos como no tênis; e propõe que se transplantem para o frescobol a quadra, a rede e as regras do " platform tennis", praticado nos EUA desde a década de 20 com raquetes semelhantes às do frescobol. Jorge Brisson, comerciante, concorda com Nei, principalmente pelo fato da quadra de "platform tennis" possuir uma tela circundando-a, o que possibilita o ricochete da bola e seu retorno imediato ao jogo, acrescentando-lhe mais emoção. Já Marcos "Índio" Serva, "free-lancer", opta pela avaliação de dupla por um júri, afirmando que "no frescobol o objetivo não é levar o parceiro ao erro, mas sim, ter a capacidade de acertar a  bola com força e precisão na raque-te do outro jogador". E prossegue: "Há uma nítida diferença de estilos entre um atacante e um defensor.     O atacante dá força à bola e o defensor amortece, devolvendo-a, de preferência, a uma altura um pouco abaixo do peito do parceiro. O atacante tem que estar preparado para bater em qualquer área da circunferência que o braço traça em volta do corpo. A batida, por sua vez, deve    ser de forma que possibilite a defesa por parte do companheiro". Marcos finaliza:   "Toda essa seqüência de jogo tem que ter um ritmo, que é importantíssimo. Não se pode jogar uma bola lá no alto, outra cá em baixo, depois de uma do lado direito e outra no lado esquerdo".

Muitos frescobolistas sonham também com a utilização publicitária dos espaços nas raquetes, bonés,   viseiras e camisetas. Várias empresas e lojas fazem a propaganda gratuita nas raquetes que vendem ou presenteiam seus clientes. Mas quando procurados por profissionais do frescobol para patrocinarem os torneios,        esquivam-se alegando não ser um esporte bem aceito e que a imagem do frescobolista ainda é negativa em virtude das campanhas adversas nos jornais.

Apesar dos novos tempos, existe muita discriminação e preconceito ao frescobol e seu partidários. Pela legislação praiana em vigor, merecerão primeiramente um advertência os frescobolistas (ou outros desportistas)     flagrados fora das áreas estabelecidas em determinados módulos. Em caso de reincidência, os jogadores terão o material utilizado apreendido, e serão detidos e apresentados, "incontinente, à Delegacia Policial correspondente ao local da infração para o procedimento cabível."

Enquanto isso no Rio de Janeiro uma pessoa está sujeita à prisão ao praticar um esporte na praia, em Brasília, no alvorecer da Nova República, o Deputado Márcio Braga, criador da Comissão de Esporte e Turismo, declarava que para começar a reforma no esporte basta uma lei com dois artigos:
1) É livre a prática esportiva em todo os País
2) Revogam-se as disposições ao contrário

Até que se ordenem apropriadamente as práticas desportivas nas praias cariocas de maneira a permitir sua perfeita convivência com quem deseja aproveita-las descansando ou passeando, persistirão as discussões e as infindáveis campanhas contrárias ao frescobol (e outros esportes) em boa parte da imprensa.